sábado, 3 de abril de 2010

A Soberania de Deus

É possível conciliar as duas posições chamadas soberania absoluta de Deus e livre-arbítrio do homem sem violentarmos uma ou outra? O artigo que segue abaixo vai te responder esta pergunta.  Este texto é um dos melhores que li até hoje sobre estes assuntos. Recomendo a leitura tanto para arminianos quanto para calvinistas!
Boa leitura!

A Soberania de Deus

A.W. Tozer


Quem há que não tema a Ti, Senhor Deus dos Exércitos, altíssimo e terrível? Só Tu és Senhor, Tu criaste o céu dos céus, a terra e tudo que nela habita, e a alma de todo ser vivente está nas Tuas mãos. Tu és Rei sobre os mares; és Rei para sempre; grande Rei sobre toda a terra. Estás vestido de força; a honra e a majestade estão perante Ti. Amém.

A soberania de Deus é o atributo pelo qual Ele domina sobre toda a criação. Para ser soberano, Deus tem de ser onisciente, onipotente e absolutamente livre. As razões para isso são as seguintes:

Se houvesse uma parcela de conhecimento, por menor que fosse, desconhecida de Deus, Seu domínio iria falhar nesse ponto. Para ser Senhor de toda a criação, Ele tem de possuir todo o conhecimento. Se um pequeno, infinitesimal grau de poder faltasse a Deus, essa falta acabaria com o Seu reino; esse único átomo de poder extraviado pertenceria a outro, e Deus seria governante limitado, e não soberano.

Ademais, a Sua soberania exige que Ele seja totalmente livre para fazer aquilo que Lhe apraz em qualquer lugar ou qualquer tempo e desempenhar o Seu propósito eterno em cada detalhe, sem a mínima interferência. Se fosse menos que livre seria menos que soberano.

A concepção de liberdade sem limites exige um esforço vigoroso da mente. Não estamos condicionados psicologicamente para isso, e não aceitamos a liberdade exata em suas formas imperfeitas. O nosso conceito de liberdade foi formado num mundo em que não existe liberdade absoluta, e onde cada objeto natural depende de muitos outros objetos, sendo que essa dependência limita a sua liberdade.

O poeta Wordsworth, no início de seu prelúdio, regozijava-se porque escapara da cidade em que tanto tempo estivera preso e agora estava “livre, livre como um pássaro, para morar aonde eu quiser”. Mas, ser livre como um pássaro, não é ser livre. O naturalista sabe que as supostamente livres vivem numa gaiola de temor, fome e instinto; sendo limitadas pelas condições climáticas, variações na pressão atmosférica, suprimento de alimentos no local, animais predadores, e a mais estranha das algemas: a compulsão de permanecer dentro do pequeno quinhão de terra e ar que lhe foi designado pelas demais aves. A ave mais livre, como toda coisa criada, está presa a uma rede de necessidades. Só Deus é livre.

Deus é totalmente livre porque ninguém e nada poderão impedi-lO, compeli-lO ou fazê-lO parar. Ele pode sempre fazer o que Lhe agrada, em todo lugar e eternamente. Para ser assim livre, deve possuir também autoridade universal. Sabemos pelas Escrituras que Seu poder não tem limites, e também podemos deduzir isso de outros dos Seus atributos. Mas, que dizer de Sua autoridade?

Até mesmo o fato de discutir a autoridade de Deus parece-nos sem sentido e duvidar dela seria absurdo. Poderíamos imaginar o Senhor Deus dos Exércitos pedindo permissão a alguém? A quem? Quem é maior do que o Altíssimo? Quem tem mais poder do que o Todo Poderoso? Que antedata o Eterno? A que trono Deus se curvaria? A quem Ele apelaria? “Assim diz o Senhor, Rei de Israel, seu Redentor, o Senhor dos Exércitos: Eu Sou o primeiro, eu o Sou o último, e além de mim não há Deus. (Isaías 44.6).

A soberania de Deus é um fato bem firmado nas Escrituras e declarado em alta voz pela lógica da verdade. Mas confessamos que fez surgir principalmente dois problemas que até agora não foram resolvidos de modo satisfatório.

O primeiro problema é a presença na criação de coisas que Deus não aprova, como o mal, a dor e a morte. Se Deus é soberano, poderia ter evitado a sua existência. Por que Ele não o fez?

No livro “sagrado” do zoroastrismo, a mais alta das religiões não-bíblicas, o Zend-Avesta, essa dificuldade foi resolvida pela postulação dum dualismo teológico. Havia dois deuses, dizem eles, Ormazd e Ahriman, e os dois criaram o mundo. O bom Ormazd fez todas as coisas boas e as outras foram feitas pelo perverso Ahriman. Era tudo muito simples. Ormazd não tinha soberania com que se preocupar, e aparentemente não se importava por compartilhar com outro as suas prerrogativas.

Esta explicação não serve para o cristão, pois contradiz a verdade tão enfaticamente ensinada em toda a Bíblia, que Deus é um só e só Ele criou o céu e a terra e todas as coisas existentes. Os atributos de Deus são tais que é impossível a existência de um outro deus. O cristão admite que não tem a resposta final para o dilema do mal permitido. Mas sabe o que essa resposta não é. E sabe que o Zend-Avesta também não a possui.

Embora não tenhamos uma explicação completa quanto à origem do pecado, há algumas coisa que porém sabemos. Na Sua sabedoria soberana, Deus permitiu a existência do mal em áreas restritas da Sua criação, uma espécie de malfeitor fugitivo cujas atividades são temporárias e de propósito limitado. Ao permitir isso, Deus o fez conforme a Sua infinita sabedoria e bondade. Ninguém sabe mais do que isso até o presente, e não precisamos saber mais. O nome de Deus é garantia suficiente quanto à perfeição de Suas obras.

Outro verdadeiro problema criado pela doutrina da soberania está ligado com a vontade do homem. Se Deus rege o Seu universo soberanamente, como pode o homem exercer o seu livre-arbítrio? E se não há liberdade de escolha, como pode ser responsável pela sua conduta? Não será ele apenas um boneco cujas ações são determinadas por um Deus, atrás do palco, que puxa as cordas conforme quer?

A tentativa de responder a estas questões dividiu a Igreja em dois campos que respondem pelo nome de dois distintos teólogos, Jacobus Arminius e João Calvino. A maioria dos teólogos se contenta em entrar num ou outro campo; e, ou negam a soberania de Deus, ou negam o livre-arbítrio do homem. No entanto é possível reconciliar essas duas posições sem violentarmos uma ou outra, embora o esforço seguinte possa parecer deficiente aos partidários de um ou de outro campo.

O meu ponto de vista é o seguinte: Deus soberanamente decretou liberdade ao homem para exercer escolha moral, e desde o princípio ele tem cumprido esse decreto escolhendo entre o bem e o mal. Quando escolhe o mal, não anula a vontade soberana de Deus mas a cumpre, pois Deus não determinou qual seria a escolha do homem, e sim que ele teria liberdade de escolha. Se, na Sua liberdade absoluta, Deus por Sua vontade quis dar ao homem liberdade limitada, quem pode impedi-lO ou dizer: “O que fazer?” A vontade do homem é livre porque Deus é soberano. Um Deus menos que soberano não poderia outorgar às Suas criaturas a liberdade moral. Teria medo de fazê-lo.

Uma ilustração bem simples pode nos ajudar a entender. Um navio transatlântico sai de Nova Iorque em direção a Liverpool. O seu destino foi determinado pelas autoridades competentes. Nada pode mudá-lo. Este é pelo menos um retrato fraco da soberania.

No navio há muitos passageiros. Não estão acorrentados, nem suas atividades estão determinadas por decreto. São livres para se mover como quiserem. Comem, dormem, jogam, descansam, lêem, fazem o que lhes apraz, mas todo o tempo o grande transatlântico segue com eles para um porto predeterminado.

Aqui estão presentes a liberdade e a soberania, e elas não se contradizem. O mesmo acontece, segundo creio, com a liberdade do homem e a soberania de Deus. O poderoso navio do desígnio soberano de Deus mantém o seu curso firme através do mar da história. Deus Se move, imperturbável e sem obstáculos em direção ao cumprimento dos seus propósitos eternos feitos em Cristo Jesus antes da fundação do mundo. Não sabemos tudo que estes propósitos incluem, mas o suficiente tem sido revelado para que tenhamos uma idéia geral das coisas que virão, dando-nos esperança e a firme segurança do bem-estar futuro.

Sabemos que Deus cumprirá cada promessa feita aos profetas; sabemos que os pecadores serão um dia eliminados da terra; sabemos que os remidos entrarão no gozo do Senhor e que os justos resplandecerão no reino de Seu Pai; sabemos que a perfeição de Deus ainda virá a ser aclamada universalmente, que toda a inteligência de Deus Pai, e que a presente ordem imperfeita desaparecerá, e um novo céu e uma nova terra serão estabelecidos eternamente.

Deus está se movendo nessa direção com sabedoria infinita e perfeita precisão em Seus atos. Ninguém poderá dissuadi-lO dos Seus propósitos; nada O desviará do Seu plano. Pelo fato de ser onisciente, não haverá imprevistos, nada de acidentes. Porque Ele é soberano, não haverá contradição de ordens, nem quebra de autoridade; e por ser Ele onipotente, não faltará poder algum para atingir os fins propostos. Deus é suficiente para todas essas coisas por Si mesmo.

As coisas não são porém tão fáceis como este breve esboço pode sugerir. O mistério da iniquidade já opera. No vasto campo da vontade soberana e permissiva de Deus, o tremendo conflito entre o bem e o mal continua em fúria crescente. Deus fará finalmente a Sua vontade no vendaval e na tempestade, mas tempestade e vendaval estão aqui, e como seres responsáveis, temos de fazer a nossa escolha moral na situação presente.

Certas coisas foram decretadas pelo livre-arbítrio de Deus, e uma delas é a lei da escolha e suas consequencias. Deus declarou que todo aquele que voluntariamente se entrega a seu Filho Jesus Cristo na obediência da fé, receberá a vida eterna e s e tornará filho de Deus. Decretou também que aqueles que amam as trevas e continuam em sua rebeldia contra a suprema autoridade do céu, permanecerão em estado de alienação espiritual e sofrerão afinal a morte eterna.

Se reduzirmos tudo a termos individuais, chegamos a algumas conclusões de vital importância e altamente pessoais. No violento conflito moral que agora se processa, atingindo a todos, quem estiver do lado de Deus está do lado vencedor e não poderá perder; quem estiver do outro lado está do lado perdedor e não poderá vencer. Não há chance nem acaso. Há liberdade de escolha quanto ao lado que lutaremos, mas não poderemos modificar os resultados da escolha, uma vez feita. Pela misericórdia de Deus podemos nos arrepender duma escolha errada e alterar as suas consequencias, fazendo nova e acertada escolha. Além disso nós não podemos ir.

Toda a questão de escolha moral se concentra em Jesus Cristo. Ele definiu claramente: “Quem não é por mim é contra mim”, e “Ninguém vem ao Pai senão por Mim”. A mensagem do evangelho abrange três elementos distintos: um anuncio, um mandamento e um chamamento. Ela anuncia as boas novas da redenção cumprida mediante a misericórdia, ela ordena aos homens que se arrependam e os chama para se renderem aos termos de graça, crendo em Jesus Cristo como Senhor e Salvador.

Temos todos de decidir se obedeceremos ao evangelho ou nos afastaremos dele, incrédulos, rejeitando a sua autoridade. A escolha é nossa, mas as consequencias já foram determinadas pela vontade soberana de Deus, e dela não poderemos apelar.

O Senhor desceu dos céus,
E os deixou bem lá no alto,
Sob os Seus pés lançou
As trevas do firmamento.
Sobre querubins e serafins,
Com toda majestade Se apresentou
E nas asas de bentos poderosos,
Veio carregado de longe,
Ele sentou-Se sereno sobre as águas,
Restringindo a sua fúria;
E como soberano Senhor e Rei,
Para sempre reinará.

Paráfrase do Salmo, 
por THOMAS STERNHOLD



Retirado do Livro “Mais perto de Deus” Tozer, A.W. Editora Mundo Cristão. Um livro sobre os atributos de Deus.




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